Abrindo portas

Sempre achei as propagandas de cartão de crédito com conceito "portas se abrindo para você" um pouco exageradas. Talvez, por pura ingenuidade, imaginava que qualquer cliente, desde que pudesse pagar pela mercadoria, seria sempre bem atendido. Realmente não colocava tanta fé na força de um pedacinho de plástico que faz não só com que as portas de estabelecimentos se abram literalmente, mas também as de um país.

Joãozinho estava com sua mulher na fila destinada ao resto do mundo da alfâdenga inglesa. Ser designado para a parte dos que sobraram já não é muito confortável, embora seja compreensivo. Até que, enfim, chega a hora da sabatina. Um indiano sem expressão e sem energia dispara sua metralhadora de perguntas sem ao menos levantar a cabeça: É a primeira vez que visitam a Europa? Onde estão os vistos das outras viagens? Passaporte novo? Vocês estão com o antigo? Com o que você trabalha? E você, é publicitária também? Onde ficarão? Deixe me ver a reserva do hotel? Posso ver também as passagens para Portugal? Quantos dias vocês ficarão? Quantas libras vocês têm? Ao ouvir a resposta, o indiano levanta a cabeça e olhando pro Joãozinho pela primeira vez. E dispara um tiro certeiro: só isso? Mas vocês têm cartão de crédito, não têm?

O impacto foi forte, aquela pequena fortuna que o casal levava parecia não significar nada para seu carrasco. Meio atordoado e já com poucas esperanças de sair ileso do tiroteio, Joãozinho contra-ataca. Sim Visa, Amex... Você disse Amex? Revidou o atirador indiano já com um sorriso confiante da vitória. Sim... foi a única coisa que o abatido Joãozinho conseguiu pronuciar antes de escutar os dois estampidos de misericórdia. Abrindo os olhos percebeu que os tiros não eram direcionados a ele. A cavalaria americana chegou de surpresa e com, toda sua eficiência, eliminara o indiano enquanto abria as portas da ilha.

2 comentários:

Redatozim disse...

DEveriam trocar o passaporte pela última fatura paga do cartão de crédito.

Eduardo César disse...

A fatura não é grande. Acho que iria ter efeito contrario. Num mundo de imagens, o que vale é a bandeira que ostentas.